Historiadora nascida no Rio de Janeiro, feminista, professora, doutora em História Social, mãe e avó abre sua casa ao JC para contar um pouco da sua vida
Karla Beraldo
Uma mulher com M maiúsculo

Desde 1983 o endereço é o mesmo. E quem atravessa a porta da casa da historiadora Lidia Maria Possas é recebido por uma coleção de souvenirs, miniaturas, enfeites, livros e quadros. Para alguns, um monte de coisas acumuladas que dificultam a limpeza. Para ela, tudo que a revela ser quem é. Mais do que a soma de lembranças, são histórias.

História de uma mulher nascida na cidade do Rio de Janeiro, feminista, mãe de três filhas e que veio para Bauru na década de 1980, na companhia do marido, médico falecido em 2006. Uma mulher que além de Lidia é Maria, daquelas da geração nascida pelas mãos de parteiras e cujo risco levava as mães a, por meio do batismo, clamar a proteção de Nossa Senhora.

História de uma mulher que graduou-se pela Universidade Federal Fluminense, concluiu o mestrado na Universidade Estadual Paulista e se fez doutora em História Social pela Universidade de São Paulo. Autora do livro “Mulheres, Trens e Trilhos”, é uma mulher que dedica a carreira acadêmica a descobrir, entender, celebrar e defender outras mulheres. Enfim, uma mulher com “eme” maiúsculo.

Confira a seguir os principais trechos de um delicioso bate-papo de quase duas horas. Uma dica da reportagem e da entrevistada: faça isso na companhia de um bom vinho!

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Jornal da Cidade – Logo “de cara” você me explicou a razão do seu nome. É mania de historiadora?

Lidia Possas – A partir do momento que você faz história, adentra essa área do conhecimento, você vê que tudo tem uma explicação. Reconhecendo que nada é natural, que somos produto de um processo histórico, de escolhas, eu quero saber o por quê de tudo. A gente naturaliza muito as coisas, mas tudo tem um enigma a ser decifrado. A área da história leva você estar atenta ao querer entender o porque das coisas.

JC – Percebi que sua casa é repleta de souvenirs. É apegada às lembranças?

Lidia – É um jeito de reservar a memória que é identidade e que, por sua vez, é construída por meio das lembranças. Deve ser por isso que eu tenho tantas coleções, de rolhas e rótulos de vinhos, bolachas de cerveja, canecas, telefones. Também não deixo de trazer coisas de todos os lugares para os quais viajo. Todas essas coisas contam e revelam quem eu sou, são os elementos que mostram um pouco de mim, do meu perfil. Uma pessoa sem memória não existe. Não quero viver de passado, não quero voltar a nenhum desses lugares ou momentos que estão nas fotos, por exemplo. Mas eu quero viver o hoje tendo guardado essas lembranças.

JC – Gosta de viajar?

Lidia – Ultimamente não estou viajando por hobby. As minhas viagens ocorrem nos intervalos de trabalho, quando vou para congressos. Os últimos foram no México, Portugal e Espanha. Agora em junho estou me programando para ir para Nova York para um casamento. Estou louca para conhecer, porque será daqueles típicos casamentos americanos que acontecem durante o dia, com aquelas madrinhas todas velhinhas vestidas de rosa. Vamos eu e minha irmã.

JC – Ela é quem costuma ser sua companheira de viagem?

Lidia – Ela me acompanha bastante, mas sempre brinca, “lembre-se que não sou viúva” (risos). Meu cunhado é ótimo. Ele vai com a gente, mas por compromissos de trabalho, não pode ficar muitos dias, então ele volta e nós ficamos. Éramos em três, mas perdi meu irmão em 2000. Sempre fomos muito unidos, inseparáveis, agora ficou só ela, minha querida companheira. Mas viajo bastante sozinha também.

JC – Se não são as viagens, qual o seu hobby?

Lidia – Acho que no momento é tomar vinho. Eu sou presidente de uma confraria feminina de vinhos. Criamos o grupo em 2007 e, no total, somos 12 mulheres de diversas profissões. Definimos áreas de estudo de vinhos e nos reunimos uma vez por mês para aprender sobre cada uma dessas áreas.

JC – Onde e como costumam ser esses encontros?

Lidia – Às vezes aqui em casa ou na de alguma outra integrante da confraria, mas, ultimamente, a gente tem se reunido em restaurantes. Escolhemos o lugar e o restaurante faz o cardápio em função dos vinhos que nós estamos estudando. Mês passado estudamos os vinhos brancos e tintos da Califórnia, que são o top do novo mundo. Estamos explorando primeiro os países da América, depois vamos para o sul da África e Austrália, para só depois partimos para os vinhos tradicionais do velho mundo.

JC – Qual o principal prazer no estudo do vinho?

Lidia – Ninguém toma vinho igual. É bom conhecer como o francês, o português, o espanhol bebem vinho, porque são hábitos que revelam práticas culturais. O que eu acho interessante no vinho é que você aperfeiçoa o seu paladar, aroma, o olfato. Cada vinho tem um aroma, uma cor diferente e é lindo descobrir isso. Além disso, isso é filosofia minha, o papo de vinho não é igual ao de cerveja.

JC – E qual é a sua “filosofia de bar”? (risos)

Lidia – Não é que eu não goste de cerveja. Eu gosto, principalmente no calor, tem dia que vinho não desce. Mas eu acho que o papo com o vinho é mais intimista, você quer conhecer o outro, é um papo mais sensível. O papo da cerveja é o papo da gargalhada, de falar besteira, contar piada.

JC – E como veio parar em Bauru?

Lidia – Eu me casei no Rio e o Eldo e eu viemos para a região em 1974, porque ele foi convidado para ser médico em Iacanga. Resolvi vir assim meio pioneira mas foi a melhor coisa que eu fiz na vida. Em 83 nos mudamos para Bauru, porque resolvemos que não dava para ficar mais tempo em Iacanga porque as meninas estavam crescendo e elas precisavam de uma educação um pouco mais cuidadosa.

JC – Começou a dar aulas cedo?

Lidia – Em 77 surgiu um concurso, eu entrei no Estado e consegui escolher Iacanga. Depois trabalhei na Divisão Regional com ensino supletivo. Em 85 fui convidada a ser professora de história do brasil da USC, onde fiquei por 10 anos até ingressar na Unesp. Nessa época eu ainda era doutoranda da USP.

JC – E atualmente?

Lidia – Eu coordeno um laboratório de estudos de gênero, na Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília.

JC – Quando descobriu as mulheres como campo de pesquisa?

Lidia – Já foi no mestrado, envolvida pelo movimento feminista que demorou a entrar nas universidades brasileiras. Foi um feminismo de segunda ordem, mais abrangente e não o da Betty Friedman, de querer ser igual ao homem. Um movimento de mulheres que queriam ser respeitadas como mulheres e como ser humano. Mas foi do doutorado que nasceu meu livro “Mulheres, Trens e Trilhos”, sobre o impacto da implantação das ferrovias paulistas na sociedade conservadora do interior do Estado.

JC – Assumir-se feminista assusta as pessoas, ainda hoje?

Lidia – Espanta um pouco, mas eu faço questão de dizer, não para provocar, mas para perceber o quanto essa palavra ser feminista está carregada de esteriótipo. As palavras estão impregnadas de sentido e significado construídos por determinadas épocas. Quando eu falo que sou feminista hoje, não estou dizendo que sou feminista da primeira onda, que queimava sutiã em praça pública. Naquele momento elas queriam ser iguais aos homens porque elas não eram sujeitos de direito. Mas se você trouxer o feminismo para hoje é justamente a luta pelo respeito à cidadania, aos direitos humanos. Temos o direito de ser tratados de uma forma de equidade de gêneros: homens e mulheres, com as suas diferenças, são todos cidadãos. Muitos acham que as mulheres modernas estão fora do lugar e eu não aceito isso. Porque a pergunta seria: qual é o nosso lugar? É em casa, cuidando dos filhos, seria na esfera privada? Nosso lugar é onde temos competência de estar. E para isso as mulheres tem que dar o couro.

JC – Você teve que abrir mão de muitas coisas em função da carreira?

Lidia – Hoje me sinto muito mais profissional, porque minhas filhas já estão encaminhadas. Mas já me prejudiquei muito. Eu fui fazer minha pós-graduação aos 47 anos, porque eu não tinha com quem deixar as meninas em Bauru, não tinha família aqui. Então, foi um conflito pessoal grande como mulher. Minha filha ia estudar na casa das coleguinhas e via as mães em casa, fazendo o lanchinho da tarde e cadê a mãe dela? Quando as coleguinhas vinham em casa, eu não estava, estava trabalhando. Elas tinham um modelo exemplar de mãe e eu tentava explicar para elas que existiam outras formas de ser mãe. Porque eu não era aquela que fazia o docinho, levava na escola. Não era e não queria ser essa mãe, porque eu tinha ainda desejos.

JC – Para você, qual o maior desafio da mulher moderna?

Lidia – É ela conseguir desnaturalizar os papéis tradicionais que lhes são colocados. É conciliar essas funções tradicionais que estão muito impregnadas. Se você me perguntar: “você casaria?”. Sim, eu queria casar, adoro ser mãe, tenho orgulho das minhas três filhas. Mas, ao mesmo tempo, para eu conseguir fugir do padrão, desnaturalizar aquela mãe que foi a minha mãe, não foi fácil. E esse é o grande desafio da mulher moderna: encontrar uma forma de ser uma mulher competente, autônoma e ainda conciliar com as funções domésticas. Mas só vai conseguir vencer esse desafio se os homens também aceitarem isso, colaborarem. Se o casal conseguir conciliar não vai ter conflito, os papéis passarão a ser revistos.

JC – Qual a mulher que mais admira?

Lidia – Ah, tem várias. Tenho uma admiração muito grande pela Indira Gandhi. Outra é a somaliana Ayaan Hirsi Ali; cada momento eu me apaixono por uma: Maria Antonieta, redescobri recentemente a princesa Isabel. Agora, uma que eu tenho paixão mesmo é a Frida Kahlo. Tenho lido bastante biografias de mulheres, que tem ganhado bastante investimento da produção editorial. È uma luz que está se colocando sobre o protagonismo feminino. Temos a Dilma no poder, eu votei nela, estou apostando e acho que ela está fazendo um baita de um governo. Ela sabe que não pode errar. Um erro, as pessoas vão falar: “está vendo, mulher no poder”.

JC – Considera-se uma mulher realizada?

Lidia – Plenamente. Hoje eu posso dizer isso, com os meus bons anos vividos, muito bem casada. Casei com um machão, que se transformou (risos). Ele falava “você casou com um machista e eu casei com uma mulher que não era feminista, mas que se transformou e criou três”.

JC – Você tem medo de envelhecer?

Lidia – Tenho, mas não envelhecer no sentido de aparência, mas no sentido do físico debilitar, de eu perder a minha capacidade de autonomia intelectual, de andar, de escolha, de poder dirigir, de sair. Esse é meu receio, ter que depender de terceiros. Porque aí você morre. O envelhecer é morrer em vida.