
Ao retomar a historicidade do Dia Internacional das Mulheres, constatamos que
os movimentos sociais e feministas em sua “Segunda Onda”, nos Estados
Unidos na década de 70, foram os responsáveis pela vanguarda das
reivindicações visando garantir um espaço de protagonismos para as mulheres.
A pauta de reivindicações era revolucionária para a época: exigia a equidade
salarial, rompendo a desigualdade no trabalho; os direitos reprodutivos,
com liberdade de acesso aos métodos contraceptivos e educação sexual,
a criminalização da violência contra a mulher. Além disso, questionavam o
papel da mulher como única responsável pela casa e pelos filhos, buscando a
divisão justa de tarefas e a garantia de representação política, com
presença feminina nos espaços de poder.
A criação oficial deu-se em 1974, quando as Nações Unidas preparavam
a Primeira Conferência Mundial sobre as Mulheres, que ocorreria no
México, em 1975. O objetivo da época era criar um plano de ação global para
eliminar a discriminação, algo que culminou na formalização do 8 de março.
Em 16 de dezembro de 1977 como um marco jurídico a Assembleia Geral
das Nações Unidas consolidou o reconhecimento global do Dia Internacional
das Mulheres formalizando a data através da Resolução 32/142, integrando a
pauta dos direitos das mulheres à agenda de paz e segurança global.
Assim, nós do LIEG/UNESP homenageamos nossas pessoas pesquisadoras:
Bruna Silva Oliveira, pesquisadora do LIEG desde 2021, com pesquisas
premiadas de iniciação científica, e que atualmente está no mestrado em
Ciências Sociais com pesquisa sobre políticas institucionais de enfrentamento,
acolhimento e prevenção à violência de gênero no espaço acadêmico. Para
Oliveira, o crescente número de mulheres e de pessoas atravessadas por
marcadores sociais da diferença na universidade é um resultado direto de
ações de movimentos estudantis, sociais e políticos, que se espelham e
caminham juntos com os movimentos feministas. Considerando isso, a
importância da pesquisa sobre violência de gênero na universidade se dá por
uma série de razões que justificam a importância de criar definições e
contextualizar as práticas de violência sexual que ocorrem nas universidades,
como incentivar o debate, educar a comunidade acadêmica sobre
comportamentos e experiências passíveis de punição, facilitar a denúncia e
orientar os administradores sobre como agir frente às reivindicações dos
grupos afetados. Em um espaço múltiplo como a universidade, a luta pelo
direito de permanência, existência e resistência prossegue, tornando a atual
luta feminista dentro deste espaço interseccional, ampla e multissituada.
Azza Soares de Andrade, internacionalista e pós graduanda em Ciências
Sociais pela Unesp/FFC, participa do LIEG desde 2025. Pesquisa gênero,
corpo, identidades, colonialidade e sexualidades desde 2017, desenvolvendo
trabalhos voltados para o questionamento dos binarismos e machismos, em
especial na luta pelos direitos das pessoas trans e LGBTQIAPN+. Atualmente,
seu trabalho é autoetnográfico e voltado para a comunidade e cultura Ba lroom
brasileira, investigando como corpos dissidentes produzem memória,
pertencimento e resistência a partir de experiências situadas entre teoria,
performance e vivência. Andrade, enquanto pessoa trans, ativista e feminista,
busca compreender o que ocorre quando o corpo marginalizado deixa de ser
apenas objeto de análise e passa a atuar como sujeito, arquivo e território de
invenção coletiva – seu objetivo é estabelecer diálogos entre o pensamentos,
elaborações performativas e a transnacionalização de culturas e modos de
viver-ser. Ao seu ver, a cultura Balroom, historicamente transcentrada, opera
como um espaço de elaboração coletiva de memória e pertencimento,
tensionando regimes de visibilidade, captura e mercantilização do corpo
dissidente – nesses entre-lugares, a recusa, a coletividade e o mistério
configuram práticas políticas fundamentais, capazes de deslocar narrativas
hegemônicas sobre corpo, identidade e representação.
Enndiel dos Santos Mendes, é pesquisadora do LIEG desde 2022.
Atualmente é Doutoranda em Ciências Sociais e Mestra pelo PPGCS da
UNESP/FFC, com pesquisa voltada para os conceitos de Gênero e Corpo nas
Relações Internacionais. Durante a graduação sempre esteve envolvida com
pesquisas de Gênero e se aproximou do debate através dos trabalhos de
Judith Butler. Com o amadurecimento enquanto feminista e pesquisadora,
pode unir na pós-graduação os estudos feministas e a defesa pela libertação
da Palestina. Seu foco está em utilizar o conceito de Corpo como chave de
leitura para a compreensão da violência de estado nos territórios palestinos
ocupados pelas forças israelenses. A pesquisadora parte de feminismos
preocupados com os sujeitos vulnerabilizados pelo colonialismo, capitalismo e
demais categorias de exploração sistêmica, evidenciando a autonomia destes
seja na produção de saberes e/ou práticas de resistência.
Milena Registro, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ciências
Sociais (PPGCS – UNESP/FFC). Mestra em Saúde Coletiva pela Universidade
Estadual de Londrina (UEL). Bacharel em Antropologia – Diversidade Cultural
Latino Americana pela Universidade Federal da Integração Latino Americana
(UNILA). Integra o Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero (LIEG),
onde desenvolve pesquisas nas áreas de gênero, saúde e cultura popular. Sua
trajetória acadêmica tem sido marcada pelo interesse em compreender como
saberes e práticas tradicionais/populares são mantidos e transmitidos por
redes geracionais femininas, investigando o cuidado historicamente vinculado
às mulheres e como essas práticas ancestrais pluralizam as formas de
produção de saúde. Atualmente, desenvolve sua tese por meio de uma
abordagem etnocartográfica, reunindo analisando narrativas produzidas por
essas mulheres em seus espaços de convivência e construção coletiva,
buscando mapear as dimensões territoriais-simbólicas, afetivas e práticas
dessas redes de cuidado. Ao acompanhar essas experiências, o trabalho
procura compreender também por que tais práticas se inscrevem
historicamente no corpo feminino, evidenciando as interconexões entre cultura,
saúde e gênero, bem como os processos de subjetivação e autonomia que
emergem dessas formas de cuidado e produção da vida.
Giovanna Bem Borges, mestra e doutoranda em Ciências Sociais pelo
PPGCS da UNESP/Marília, é integrante do LIEG desde 2022. Desde a
graduação pesquisa sobre a participação de mulheres na guerra,
especialmente no contexto do Leste Europeu, pois entende que a mera
existência de mulheres em posição de combate obstrui em alguma medida a
ordem social já que escapam da estrutura social de compreensão de gênero. A
partir do mestrado, a perspectiva da sobrevivência e do testemunho introduziu
sua pesquisa na dimensão da memória e da história oral, considerando a
importância desse campo para os estudos de gênero no geral e para a história
das mulheres em particular. Atualmente, analisa a ascensão de discursos
conservadores no contexto da guerra russo-ucraniana, pois é possível ver de
forma cada vez mais contundente tentativas de “retomar” a divisão sexual do
trabalho na família patriarcal, entendida como natural e imutável, que estaria
supostamente ameaçada por minorias que teriam como objetivo, em última
instância, destruir o próprio núcleo da nação. Nesse contexto, esses países
passam por uma crescente militarização com o intuito de se defender dessas
“ameaças” externas, vistas como imposições culturais e instrumentos de guerra
de um Ocidente hostil às tradições bálticas e eslavas.
E assim o LIEG segue com a nossa luta através da pesquisa e do
conhecimento, traçando novos caminhos e revendo conceitos e
epistemes, se inspirando na luta daquelas que vieram antes de nós,
construindo um construindo um futuro feminista para as que virão
depois. Feliz 8 de março para quem luta!
