Quarto encontro da Atividade de Extensão “Construindo Diálogos” – Sobrevivência e Oralidade: (ins) escrevendo vozes, corpos e existências.

As atividades do primeiro semestre de 2022 do Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero continuam! A nossa ação de extensão Construindo Diálogos “Sobrevivência e Oralidade: (ins) escrevendo vozes, corpos e existências” teve seu quarto encontros no dia 12 de maio, com a exposição da Camila Rodrigues, professora da Rede Estadual do Estado de São Paulo e doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista, campus de Marília.

A professora Camila apresentou sua pesquisa do doutorado e mestrado, diante das contribuições de Giorgio Agamben, em seu livro, intitulado O Que Resta de Auschwitz (1998). Agamben é um filósofo, autor de obras que percorrem temas que vão da estética à política e seus trabalhos mais conhecidos incluem investigações sobre os conceitos de Estado de Exceção, Homo sacer e a Vida nua e crua. De acordo com a pesquisadora Camila, no livro debatido, o autor objetiva compreender as dimensões da produção escrita dos sobreviventes do Holocausto nazista, a partir de uma análise profunda do papel do testemunho como documento histórico e de seus limites enquanto relatos pessoais.

Muitas das pesquisadoras do LIEG trabalham com mulheres ou pessoas vítimas de situações de violência, ou seja, sobreviventes. Esse conceito é essencial para compreendermos a posição de subordinação e vulnerabilidade dos sujeitos marcados e posicionados no sistema de gênero, raça, classe, geração, sexualidade e etc. É nesse sentido que, para Primo Levi e Giorgio Agamben, o testemunho é um documento histórico, pois permite que o relato se torne prova de fatos concretos. Nos casos de violência doméstica, tema do estudo de Camila Rodrigues, o testemunho não é suficiente para comprovar a veracidade dos acontecimentos. Isso ocorre devido ao fato de que as instituições policiais e jurídicas reproduzem práticas, comportamentos e falas permeados pela estrutura cultural e histórica machista e sexista.

De acordo com Camila, apesar das mulheres vítimas de violência disporem de espaços institucionais para realizarem denúncias, os mesmos não oferecem uma escuta acolhedora, pois não são propícios para que possam ser ouvidas. O acolhimento é precário por parte de alguns agentes jurídicos e policiais, que descredibilizam o testemunho das vítimas. Logo, foi possível visualizar e examinar o porquê da permanência e aumento dos casos de violência doméstica e a carência de políticas de gênero ou feministas, que pudessem amparar e diminuir os números das vitimadas. Com essa exposição, mais uma sessão da nossa atividade nos auxilia para construção de olhares e metodologias feministas, com o intuito de enriquecer nosso trabalho no grupo, enquanto coletivo ativo na Universidade.

Terceiro encontro da Atividade de Extensão LIEG 2022

As atividades do primeiro semestre de 2022 do Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero continuam! A nossa ação de extensão Construindo Diálogos “Sobrevivência e Oralidade: (ins) escrevendo vozes, corpos e existências” teve seu terceiro encontros no dia 28 de abril, com a exposição da Professora Valéria Barbosa Magalhães, docente da EACH/USP e coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em História Oral e Memória (GEPHOM/USP).

Nessa terceira sessão debatemos e refletimos acerca da discussão sobre ética nas pesquisas de história oral e das atuais perspectivas e casos dos comitês de ética em pesquisa. A fala da professora foi guiada a partir dos argumentos e ideias presentes em seu capítulo, componente do livro História Oral como experiência: reflexões metodológicas a partir de práticas de pesquisa. O debate foi essencial para reflexionarmos sobre as condições impostas a nós enquanto pesquisadoras e, especificamente, das questões de gênero e sensíveis à necessidade de estudar e olhar para o outro.

As metodologias e técnicas de pesquisa, em algumas das múltiplas correntes da História Oral, evocam tencionar as relações estabelecidas entre pesquisador e pesquisado. Partimos do entendimento de que o objeto do estudo, na realidade, possui agência e deve ser analisado conforme sua condição de sujeito ativo na sociedade. O LIEG, enquanto um grupo multidisciplinar, pôde apropriar-se de um fazer ciência que tenta subverter e alterar o modo como nos relacionamos com a pesquisa. Dessa forma, foi possível criar uma rede de pessoas resistentes aos moldes tradicionais da História e das Ciências Sociais, que nos aprisionam e limitam nossos meios de exercer a profissão.  

Primeiros encontros da Atividade de Extensão LIEG 2022

As atividades do primeiro semestre de 2022 do Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero já começaram! A nossa ação de extensão Construindo Diálogos “Sobrevivência e Oralidade: (ins) escrevendo vozes, corpos e existências” teve os primeiros encontros nos dias 31 de março e 14 de abril, com a exposição da Professora Lídia Possas e Beatriz Barreto, ambas vinculadas à UNESP-Marília, do livro Os Afogados e os Sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades de Primo Levi.   

A coordenadora do LIEG, Lídia Possas, teve como objetivo introduzir o conceito de sobrevivência, a partir da perspectiva de Primo Levi, que foi levado para um dos campos de concentração de Auschwitz, em 1944. No final da Segunda Guerra Mundial, Levi era um dos únicos sobreviventes do carregamento de pessoas de seu trem. O ano de publicação do livro analisado foi 1986, no qual Levi reconstitui suas lembranças do cotidiano hostil no campo de Auschwitz e reflete sobre as condições políticas, sociais e culturais do período vivido.

A obra de Levi foi essencial para iniciarmos no aprofundamento de metodologias e teorias da história, que se apropriam da memória e do testemunho daqueles que sobreviveram a alguma situação traumática. Enquanto pesquisadoras/es das questões de gênero, é essencial considerarmos as perspectivas das pessoas posicionadas como vitimadas. Isso significa que compreender os mecanismos de violência, como a de gênero, demandam apropriação dos discursos produzidos por aqueles oprimidos.

A complexidade das consequências e resquícios causados por vivências perturbadoras precisa ser considerada, na tentativa de não realizarmos o que Primo Levi denomina de simplificações ou tendências maniqueístas. Assumir uma posição crítica, diante acontecimentos históricos ou pontuais de violência, humilhação, tortura e etc., exprime a necessidade de não reduzi-los a dois blocos, o das vítimas e o dos opressores. Verificar-se que existe opressão e oprimidos, mas admitir uma bipartição, como se houvessem personagens simplistas, esvazia a análise dos fatos.

Portanto, os primeiros dois encontros da nossa atividade de extensão fomentaram indagações, desconfortos e dúvidas. O nosso grupo do LIEG tem aprendido que compartilhar experiências de sobrevivência, assim como ouvir testemunhos, tornam nossas reuniões e pesquisas mais plurais e integrais, na medida em que acessamos cada vez mais a essas oralidades.

Avanços na UNESP em 2022 – direitos e equidade garantidos?

Em 2022, a assessoria estratégica de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, foi institucionalizada como coordenadoria em decisão do Conselho Universitário. Essa iniciativa representa um dos avanços da Universidade em direção à concretização de um ambiente mais justo e seguro para todas, todos e todes. Segundo notícia publicada no site oficial da instituição de ensino superior, o trabalho da coordenadoria é “identificar, diagnosticar e mapear culturas e práticas; e elaborar, planejar, acompanhar e avaliar políticas para a efetivação da equidade de gêneros; inclusão e respeito às diversidades; e enfrentamento – mas, acima de tudo, prevenção – de todas as formas de violência na Unesp”.

Na mesma direção da coordenadoria, a ouvidoria da UNESP tem apresentado também alguns avanços. Uma de suas funções, enquanto único órgão institucional de comunicação e informação da universidade, é disponibilizar atendimento e suporte à comunidade acadêmica. Apesar de algumas falhas e desvios em sua funcionalidade, a ouvidoria da UNESP, ultimamente, apresentou saltos qualitativos na tentativa de alertar e informar sobre algumas prerrogativas, como, por exemplo, a proibição do trote. Essa disposição resultou na elaboração e distribuição do folder anexado a seguir:

As pesquisas e trabalhos realizados pelo Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero (LIEG-UNESP), nesses últimos anos, estão e têm sido alinhados exatamente às propostas e iniciativas demonstradas acima. Nosso grupo tem identificado e apontado as emblemáticas dificuldades estabelecidas na permanência digna de mulheres, pessoas LGBTQIA+, pobres e pretas nos espaços universitários. Nesse sentido, algumas de nossas demandas de luta estão sendo atendidas nesse momento! Mas será que, de fato, significarão uma melhora na qualidade de vida e existência desses sujeitos na Universidade? Estaremos atentas/os ao trabalho da coordenadoria e da ouvidoria da UNESP, que reconheceram a importância de dar atenção e valor às vidas e corpos marginalizados e violentados nesses ambientes.

Dia Internacional das Mulheres – data de luta e reflexão

Hoje, 08 de março de 2022, é considerado o Dia Internacional das Mulheres e, normalmente, data de comemoração e homenagem à existência de mulheres. O grupo do LIEG posiciona-se de uma forma que pretender problematizar não só a comercialização, idealização e o desvio do aspecto político do dia de hoje, mas também trazer algumas reflexões: Quem consideramos mulheres hoje no Brasil? Qual a realidade de existência das mesmas? Quais nossas principais demandas e reivindicações de luta?

A partir de um posicionamento e perspectiva feminista não-hegemônica, consideramos que o movimento necessita considerar a multiplicidade das formas de expressão do gênero feminino e a complexidade das diferenças entre as formas de existência desse grupo. O feminismo do LIEG não é indiferente à questão racial, colonial e sexual. Isso significa que não ignoramos o fato de que SER MULHER significa ser ou estar em posições de vulnerabilidade e de opressão, com recortes históricos, sociais e econômicos de raça, classe, sexualidades, religião e etc.. Portanto, a existência das mulheres plurais está interseccionada por múltiplas formas de opressões, violências e invisibilizações.

Quem está na posição de vitimada? Por que mulheres brancas são vistas como meigas, desprotegidas e despreparadas e mulheres negras como agressivas e indestrutíveis? Por que as trans e travestis não são vistas nem como pessoas ou como mulheres? As violências estão atravessadas por diversos aspectos estruturais, históricos e políticos que moldam e determinam algumas existências. É nesse sentido que o dia de hoje é importante para darmos visibilidade à condição de vivência das mulheres no Brasil:

Violência contra a mulher aumentou no último ano, revela pesquisa do DataSenado”. Fonte: Agência Senado (09/12/2021).

Assassinatos de pessoas trans voltam a subir em 2020″. Fonte: Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais (03/05/2020).

“Brasil registrou 140 assassinatos de pessoas trans em 2021: São Paulo foi o estado com maior número de ocorrências”. Fonte: Repórter da Agência Brasil – Brasília. (29/01/2022).

“61,8% das vítimas de feminicídio em 2020 eram negras”. “Mulheres negras concentraram índices piores de qualidade de vida quando comparado com mulheres brancas”. Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ano 15, 2021; Atlas da Violência, 2021; Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil, 3ª ed., 2021; Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, 2021, UNICEF e Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Os dados, índices, reportagens e notícias demonstram o porquê da data de 08 de março não poder estar distante da luta e das reivindicações que estão articuladas às práticas de (re)existirmos. A coletividade de mulheres, que não é homogênea e não pode ser analisada de forma generalista, encontrará sempre desafios e obstáculos no caminho da tentativa de simplesmente SER. Assim sendo, o dia de hoje demanda muitas reflexões, problematizações e mudanças para todos, todas e todes. Não queremos felicitações. Não queremos os “parabéns”. Não queremos flores, queremos a flor da vida, do respiro e de outra realidade de existência. Chega! Não nos calaremos e nem você deveria.

O movimento feminista do LIEG – o que levamos para casa em 2021?

Un movimiento feminista es un movimiento político colectivo. Muchos feminismos significa muchos movimientos Un colectivo es lo que no permanece quieto, sino que crea movimiento y es creado por él. Imagino la acción feminista como ondas en el agua: una pequeña ola, posiblemente creada por los rigores del clima, aqui y allá, cada movimiento possibilitando otro, otra onda, hacia fuera, expansiva (…). Un movimiento también es un refugio. Convocamos; tenemos una convención. Un movimiento nace para transformar lo que existe.

Citação do livro Vivir una vida feminista de Sara Ahmed, 2018, p. 15-16.

Finalizamos as atividades de 2021 com muitas reflexões e aprendizados. O LIEG, mais uma vez, protagonizou o movimento de dar visibilidade a epistemologias, metodologias e teóricas/os marginalizadas e esquecidas pela grade curricular dos cursos tradicionais. Isso significa que, ao refletirmos sobre a retrospectiva desse ano, fomos capazes de estudar e colocar no centro do debate autoras e autores como Robert W. Connel, Grada Kilomba, Beatriz Preciado, Vilma Piedade, Silvia Federici, Sara Ahmed, Karuna Chandrashekar, Kimberly Lacroix, Sabah Siddiqui, Boaventura de Sousa Santos, Oyèrónkẹ Oyěwùmí, Françoise Vergès e muito mais.

Em 2021 continuamos enfrentando as consequências de uma pandemia que tem se alastrado pelo mundo nos últimos dois anos. Logo, esse ano não significou somente estudos, leituras e debates, mas momentos de muita luta, companheirismo e união. A rede de troca, acolhimento e resistência, criada por nós, tem possibilitado a quebra das barreiras estabelecidas pela Universidade. O contato com pesquisadoras e pesquisadores da América Latina, Estados Unidos e Europa ilustra a potência de criar um movimento feminista coletivo além-fronteiras.

Nosso planejamento para 2022 é fortalecer esse grupo internacional com a criação de Dossiês Feministas que abordem a temática da Violência de Gênero na Universidade, foco de análise de muitas pesquisadoras do LIEG. Portanto, nossa ação e entusiasmo demonstram que não estamos encerrando ciclos, mas dando continuidade a um tear de conhecimento, parcerias, enfrentamentos e transformações. Segundo Sara Ahmed (2018, p. 123 – tradução livre), “reunimos um exército armado de braços em resposta a esta súplica. Um exército de braços feministas poderia pulsar com vida e vitalidade compartilhadas”. 

Desejamos boas festas e muitas doses de vacina nos nossos braços resistentes! Agradecemos muito a presença de todas, todos e todes nesse ano que se encerra, e esperamos, em breve, nos reconectar em 2022.

Em memória e homenagem à figura de bell hooks, uma das escritoras e ativistas que mais contribuiu para o movimento e a teoria feminista negra, deixamos aqui uma reflexão sobre nossa força individual e de como essas palavras nos tocaram, especialmente depois dessa perda irreparável:

“Sometimes people try to destroy you, precisely because they recognize your power — not because they don’t see it, but because they see it and they don’t want it to exist.”

“Em alguns momentos pessoas tentam te destruir, isso ocorre precisamente porque reconhecem seu poder – não porque não o enxergam, mas exatamente porque conseguem vê-lo e não querem que ele exista”. (tradução livre).

Último encontro da Roda de Conversa ““As epistemologias do Sul e a Violência de Gênero: Queixas, Reclamações – uma Pedagogia Feminista?”

As atividades do segundo semestre de 2021 do Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero chegaram ao fim! A nossa ação de extensão “As epistemologias do Sul e a Violência de Gênero: Queixas, Reclamações – uma Pedagogia Feminista?” teve seu nono e último encontro no dia 09 de dezembro com a participação de Rodrigo Perez Oliveira, doutor em História Social pela UFRJ e professor adjunto de Teoria da História na UFBA, onde atua na graduação e na pós-graduação.

O professor convidado ficou responsável por nos apresentar alguns aspectos importantes no processo de elaboração de um projeto de pesquisa. Nós do LIEG, enquanto um grupo heterogêneo de pesquisadoras/es, prezamos pela boa qualidade do fazer ciência. Apesar de toda discussão em torno da prevalência do cânone científico europeu, tão criticado pelas epistemologias do Sul, o grupo considerou importante nos apropriarmos dos instrumentos necessários para dar continuidade à carreira acadêmica enquanto pesquisadoras feministas estraga-prazeres.

Portanto, partindo desse lugar do olhar da criticidade metodológica das teóricas e teóricos do Sul, é possível construir um projeto de pesquisa que aborde todas essas questões. No entanto, no encontro com professor Rodrigo, focamos nos principais componentes de um projeto e o que caracteriza cada um deles. Nos aprofundamos sobre a Introdução, Justificativa, Objetivos, Discussão Teórica, Metodologia do trabalho e quais os primeiros passos que devem ser tomados na elaboração de uma boa pesquisa no geral.

As gravações, textos e fichamentos de todas as sessões ficarão disponíveis no link do drive divulgado para email de inscrição! Agradecemos a todos, todas e todes que fizeram parte da nossa trajetória em 2021. Pedimos que acompanhem o último post desse ano, para mais informações sobre nossos próximos passos em 2022.

Oitavo encontro da Roda de Conversa “As Epistemologias do sul e a Violência de Gênero: Queixas, Reclamações – uma Pedagogia Feminista?”

As atividades do segundo semestre de 2021 do Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero continuam! A nossa ação de extensão “As epistemologias do Sul e a Violência de Gênero: Queixas, Reclamações – uma Pedagogia Feminista?” teve seu oitavo encontro no dia 25 de novembro com a exposição de Paulo Eduardo Teixeira, professor da graduação e pós-graduação da UNESP/Marília e presidente da ANPUH-SP, do capítulo I. do livro Epistemologias do Sul, organizado por Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses.

Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, no dia 15 de novembro de 1940. É Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973) e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Universidade de Wisconsin-Madison. Tem escrito e publicado extensivamente nas áreas de sociologia do direito, sociologia política, epistemologia, estudos pós-coloniais e sobre temas dos movimentos sociais, globalização, democracia participativa, reforma do Estado, direitos humanos. Realizou trabalho de campo em Portugal, Brasil, Colômbia, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Bolívia e Equador.

A exposição do professor Paulo proporcionou um debate acerca de formas específicas da produção científica de conhecimento, quais são consideradas válidas e quais são descartáveis para aqueles que construíram o pilar de uma ciência que pretende ser neutra e universalizante. No prefácio do livro duas questões são apresentadas: “Por que razão, nos dois últimos séculos, dominou uma epistemologia que eliminou da reflexão epistemológica o contexto cultural e político da produção e reprodução do conhecimento? Quais foram as consequências de uma tal descontextualização? São hoje possíveis outras epistemologias?”

O que foi debatido na sessão e discorrido ao longo do texto foi essencial para compreendermos nosso lugar enquanto pesquisadoras e pesquisadores da América Latina. Discussão que tem ganhado destaque nos estudos pós-coloniais e protagonismo na elaboração de epistemologias do Sul. A oitava sessão da nossa Roda de Conversa enriqueceu nosso arcabouço teórico e metodológico, pois apresentou uma lente de análise que parte de uma outra compreensão do fazer ciência.

O próximo encontro do LIEG, que fechará as atividades do ano de 2021, estará centrado na elaboração de um projeto de pesquisa completo e bem feito, para finalizarmos com perspectiva de aprimoramento das nossas técnicas enquanto pesquisadoras/es.

Avanços – UNESP concederá bolsas de caráter emergencial para alunas que se tornarem mães

Segundo reportagem da Folha de São Paulo, do dia 1 de dezembro de 2021, a Unesp (Universidade Estadual Paulista), vai oferecer a partir do próximo ano bolsas para alunas que se tornarem mães durante a pós-graduação ou a graduação. Elas receberão o pagamento pelo período de seis meses.

De acordo com Isabela Palhares, escritora da reportagem, a iniciativa, em caráter emergencial, faz parte de um plano da universidade para evitar a evasão das mulheres na comunidade acadêmica e científica após a maternidade. A concessão de bolsas irá acontecer primeiro como um projeto-piloto.

Alguns dados apresentados no texto nos auxiliam a compreender a complexidade e importância de dar visibilidade à questão da maternidade, tanto para a universidade quanto para as pesquisadoras em geral. “Nos últimos cinco anos, 156 professoras da universidade tiraram licença-maternidade e 32 não retornaram ao trabalho —ou seja, mais de 20% deixou a vida acadêmica após se tornar mãe”.

A matéria escutou Maria Valnice Boldrin, pró-reitora de Pós-Graduação da Unesp, que diz: “É um dado que nos deixou muito alarmados, porque se trata de docentes que receberam o recurso financeiro para o período da licença-maternidade e mesmo assim se afastaram da universidade. Para as alunas, a situação é ainda pior, já que não têm nem mesmo o suporte financeiro”.

Conforme a reportagem, a Unesp também deve votar nas próximas semanas uma minuta determinando que as mulheres não podem perder o vínculo com os programas de pós-graduação por ao menos seis meses após a maternidade. “Hoje, as mulheres correm o risco de serem desligadas por não acompanhar as atividades nesse período ou não conseguir cumprir os prazos de produção científica. É um absurdo”, diz Boldrin.

Para Boldrin: “Em todo o mundo está ocorrendo esse movimento para que a comunidade acadêmica seja menos excludente com as mulheres, menos punitiva com quem está criando uma criança. Tivemos diversas gerações de pesquisadoras prejudicadas, imagine quantas cientistas e descobertas perdemos por essa exclusão”.

Legenda e créditos da imagem destacada: Candidata durante prova do vestibular da Unesp 2021; bolsas maternidade também serão válidas para alunas de graduação – Priscila Bernardes/Divulgação Vunesp.

Trechos retirados da reportagem “Unesp vai oferecer bolsa para alunas que se tornarem mães na pós ou na graduação” de Isabela Palhares.

Sexto e sétimo encontros da Roda de Conversa “As Epistemologias do sul e a Violência de Gênero: Queixas, Reclamações – uma Pedagogia Feminista?”

As atividades do segundo semestre de 2021 do Laboratório Interdisciplinar de Estudos de Gênero continuam! A nossa ação de extensão “As epistemologias do Sul e a Violência de Gênero: Queixas, Reclamações – uma Pedagogia Feminista?” teve seu sexto e sétimo encontros, respectivamente, nos dias 04 e 11 de novembro com a exposição de Vandreza Amante Gabriel, pesquisadora do LEGH (Laboratório de Estudos de Gênero e História) e pós-doutoranda do Programa de Pós-graduação em História na UFSC.  

O livro trabalhado é intitulado Um feminismo decolonial de Françoise Vergès, que nasceu na França e é cientista política, historiadora, ativista e especialista em estudos pós-coloniais. Vandreza apresentou os slides com o fichamento do capítulo I. Definir um campo: o feminismo decolonial e do capítulo II. A evolução para um feminismo civilizatório do século XXI. A autora do livro coloca alguns questionamentos acerca do feminismo como uma das forças motrizes das ideologias de direita, que por muito tempo o ignoraram, mas hoje ganha terreno nos discursos e práticas de manutenção dessa ordem social, econômica e política. Vergès questiona:

Como passamos de um feminismo ambivalente ou indiferente à questão racial e colonial no mundo de língua francesa a um feminismo branco e imperialista? Como os direitos das mulheres se tornaram um dos trunfos do Estado e do imperialismo, um dos últimos recursos do neoliberalismo e a mola propulsora da missão civilizatória feminista, branca e burguesa?

Vergès, 2020, p. 20

Essas inquietações demonstram a necessidade de darmos visibilidade ao processo de construção hegemônica de um feminismo que não atende às necessidades das mulheres plurais, mas contribui com um sistema de opressão, violência e invisibilização, especialmente das que se encontram em posição de vulnerabilidade nas sociedades, como as indígenas e pretas. Portanto, a partir da sua trajetória de escrita e posicionamento decolonial, Vergès clama por aquelas que tem seus corpos, mentes e vidas desgastadas e descartadas. Vamos passar a refletir sobre nosso feminismo? A quem ele serve? Por quem ele é construído? Por que devemos considerar feminismos?

Nossas sessões de debate têm sido muito necessárias como ferramentas de diálogo e reflexão com relação à nossa própria luta, nossos estudos e nossa existência. Fica aqui o registro da importância do trabalho que o LIEG tem realizado nesses últimos anos.